quarta-feira, outubro 27, 2010


É tudo uma porcaria.
Isso que é.
Se não fossem eles, os amigos, tudo seria pior.
Grande e burra maioria que escolhe o simplismo e a falta de criatividade em detrimento do engrandecedor.
Em uma retomada histórica: foi escolhido um grupo, inicialmente para representar algo.
Representa quem? A maioria.
E a minoria? Apesar de minoria, ela existe. Esses sujeitos também irão compartilhar das decisões, portanto merecem alguma atenção.
Mas é a tal história da democracia, 45% não são contados, 13% não são inclusos.
Desde as primeiras decisões, até a última idéia infame.
É superficial como em todos os outros anos, e mesmo assim houve uma esperança na diferença.
Mordaça é o nome do que tenho, fantasticamente, na boca e no cérebro. Mãos atadas diante de algo que é e não é meu.
Como posso ter uma festa aos meus convidados se não ajudei a escolher as flores que a colorem?
Ora, a isso dou o nome de mau gosto e mau jeito, falta de possibilidade de subjetivação.
Eles estão diluídos em uma imensa corredeira, pensam o já pensado e falam como papagaios.
E o que pode fazer um peixe contra a maré?
Nadar.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Enchanté



Fere essa saudade da família reunida,
nos tempos de alegria e de agonia, aquele cheiro de café pela manha que se tornava cheiro de misto-quente com leite mais tarde.
É dura essa saudade, saudades do gosto, do rosto,
do abraço apertado e do cutucão na costela que o irmão insiste em dar.
Me parece falta de alguma coisa que criamos em uma época capital,
onde até a chinelada era motivo de riso.
O choro era íntimo e intimador, chamava para a difícil batalha contra a noite que chegava,
com seus monstros tão particulares, e que abria caminho para o quarto ao lado, onde o herói dessa batalha era apenas 4 anos mais velho, no auge dos seus 10 ou 12 anos.
Até naquelas fatídicas partes do dia em que nos deixava a mãe,
funcionária modelo de uma instituição, no mínimo, exploratória.
E aquele assovio?
Ele, reconhecemos de longe, e ai de quem estivesse ainda sem banho!
Tantas brigas pelo remoto controle da TV, que passava desenhos e filmes durante o dia,
mas depois das 20 horas sempre vinha o jornal.
E os discos de vinil, os colchões interligados, os primeiros amores e os primeiros passos das vidas de sujeitos tão distintos e semelhantes.
Incontáveis brigas intermediadas por beijos sarcásticos, dividir aquele quarto não era tarefa fácil.
Noites embaladas ao som de titãs (acústico, claro).
E porque não lembrar dos banhos de mangueira, das brigas com des-cuidadoras, das cócegas, do mega-drive, da internet discada...
Hoje ainda, e talvez mais do que nunca, podemos compreender as escolhas, os desejos, as faltas e o cheirinho de cada um.
Hoje temos decisões difíceis a serem tomadas, pacientes, filhos (que agora ouvem aquele assovio), esforço infindável e, sem sombra de dúvidas, reconhecido.
E quando estamos juntos – e até distantes –, é sempre uma imensa felicidade pensar que dividi momentos com pessoas tão leais.
Com intercorrencias e sincronias, hoje posso dizer:
Eu tenho uma família encantadora!

terça-feira, agosto 24, 2010




Uma manhã como essa, que me faz questionar a durabilidade e a validade de tudo: garantia? Nenhuma. Nem mundo nem fundo, nem anel de brilhantes.
A incerteza que faz daqui um lugar fértil e passível de troca.
Esse contato, essa aventura que fazemos todos juntos, é ela que faz pensar, que constrói, que aflige. Amedronta.


21-08-2010

terça-feira, agosto 17, 2010

Campo de Flores



Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.


Carlos Drummond de Andrade (em Claro Enigma)

terça-feira, dezembro 29, 2009

Sentido



Meus braços estão curtos e meu coração pequeno
Os quilometros fazem brotar as lágrimas, os calafrios e a vontade.
O olfato parece impregnado de imaginário
E penso em desistir, mas não quero.
Prossigo bancando a solidão dos meus dias sem você por perto
E logo vôo, capturo seus olhos fixados nos meus - sempre tão sinceros.
Contra a força dos dias que custam a passar.
Aos outros parece exagerado o ato, e eu sinto medo,
Uma saudade apertada, doída.
E como me alivia o sentimento ouvir suas palavras na noite funda!
Meu jardim acanhado se abre em pequenas pétalas pra você.


*Denise*

terça-feira, novembro 10, 2009



Gosto quando chove e eu tenho a chance de acalmar meus olhos nas folhas miúdas das sibipirunas enxarcadas sendo acertadas com delicadeza pelos pingos d'água.
Elas sorriem, eu sorrio.
E depois elas descançam, pesadas de alimento, e espalha-se pelas ruas o confete como que um símbolo daquele dia que choveu... as pequenas folhas verdes pelo chão me alegram, enquanto outros as varrem com tanta fúria.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Presente contexto


Se é sem regresso, prefiro que vá

Ter-te por narcisismo é muito previsível.

Se é fato o retorno, eu contorno

Prefiro o seu abraço aos poucos a nenhum.

Eu fico com a voz ao telefone,

Com as linhas escritas na contra-mao do dia quente,

Com o riso que ressoa como uma alfaia dentro de mim.

Eu me sinto traída por essas circunstancias repetentes,

Partir e mudar, mas nunca deixar o legado

O gosto salgado já vem breve.

Se soubesses quantos gestos repasso

desde que entrastes no meu quintal.

Não desejo que vá, mas se é relevante, retorne sempre

Prefiro o seu abraço aos poucos para que meu coração de amiga

Beba do gosto adocicado da nossa crença,

A fé de que ainda houve um tempo em que se podia dar as mãos sem medo.

Eu te amo, minha amiga.


- Escrito após um dia daqueles que comem um pedacinho do nosso coracao, a uma amiga muito especial: Marina Cano -