
O silêncio é mesmo um abismo entre pais e filhos.
Se hoje eu pudesse contar o que há de mim na vida de meu pai, não me seria suficiente um caderno, onde ficariam aquelas lembranças boas, os sentimentos marcantes, as coisas que passamos juntos, as pessoas que conhecemos, a vida entre família.
Mas pra mim a vida dele começou quando eu nasci, ou até quando eu tinha os meus 2 anos... queria me lembrar mais dele nessa época, época tão importante da infância, em que o pai tem tantas tarefas que ele ao menos sabe que lhe competem.
Se pudesse escrever de hoje, faria o que faço agora lamento por ter sido tantas vezes relapsa, mesmo sabendo que tento ser o mais prestativa possível. O meu pai é uma grande parte de mim: idéias, conceitos, caráter, personalidade...tudo contém seus traços, mesmo que sejam rasos sulcos.
O primeiro homem da minha vida, a grande inspiração, por quê hoje as coisas são mais distantes? Relações mais curtas? Menos tempo de convivência? Vidas e ritmos diferentes? Amigos que não são mais aqueles velhos amigos em comum a quem eu costumava chamar de "Tios" e "Tias"? Outro lugar? Outra cabeça? Individualidade? Não sei dizer...
Sei dizer, com certeza, que quando a gente se encontra é como se eu fosse uma criança, ainda desprovida de sentidos proprios pra minha vida, me sinto mais cuidada, sinto como se eu nunca tivesse vivido fora daquilo...como se ele soubesse de cada detalhe da minha vida hoje, como se, de alguma maneira, ele estivesse sempre presente. E ele está.
Longe dos olhos e as vzs longe dos ouvidos e dos demais órgãos dos sentidos, mas perto dos sentimentos, dos pensamentos. As origens, as minhas origens.
Hoje não aguentei...ouvir a sua voz trêmula e triste do outro lado da linha foi a gota d'agua pra eu liberar todas as dores do meu peito. Sinto a sua falta e te amo muito, Pai.
Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer.
Denise
